Da Série Recados:
Considero o xadrez o jogo mais inteligente que conheci na vida, porque ele me pareceu sempre muito mais inteligente do que todos e tudo. A combinação e relação entre peças tornam o tabuleiro de xadrez um campo imensurável de possibilidades. Na juventude gostava de passar o tempo jogando xadrez e admirava a capacidade do Gerd Klotz em guiar as peças pelo território adversário. Gerd sabia o que estava fazendo e, por isso mesmo, era impossível ganhar dele.
Achava normal o Gerd ganhar de mim no xadrez. Afinal, tinha uma excelente escola dentro de sua própria casa. Nem achava chato, enfadonho ou humilhante perder partidas sucessivas para ele. Ao contrário, meu desafio era tentar levar a partida cada vez mais para diante, prolongando a vida dos meus guerreiros em um cenário que era, sempre, desfavorável. Jogando com o Gerd desenvolvi A ARTE DE SABER PERDER.
Apenas uma coisa achava chata ao extremo no xadrez: era quando uma partida acabava antes mesmo de começar. Tinha gente que perdia partidas antes do décimo lance. Aí era chato e constrangedor para vencedor e vencido. Afinal, que méritos há em ganhar de alguém que dispunha ao ridículo seu rei já no início da guerra? A fraqueza do adversário nos tira os méritos. A indolência do adversário nos tira os propósitos.
Nunca achei graça em ganhar ou perder uma partida de xadrez no curto prazo, antes de dez lances. Ninguém sai satisfeito de uma partida dessa. É bem o caso do gato e o rato. O gato sabe de sua superioridade, mas adia a morte do rato enquanto pode e quer. Por que o gato não devora de imediato o rato que está próximo às suas garras e presas? Porque vale para o gato o mesmo que valia para os nossos nativos antropofágicos: quer do adversário mais do que comida [carne e sangue]. Quer do adversário sua força, sua garra, sua determinação, seu exemplo.
Acho tão bobo e sem propósito jogar xadrez com quem perde nos primeiros lances. Mais tolo ainda é ver alguns desses adversários [que não valem um banquete antropofágico] saindo por aí berrando e soltando palavrões, como se a culpa de sua derrota fosse essencialmente do adversário e não sua própria.
Obs: a “Série Recados” ainda não chegou décimo lance, mas …



Realmente, meu caro amigo…
Bem mais emocionante e manifestamente plausível permanecer sereno, após ter perdido uma “partida” de 8 anos, do que perder uma “partida” rápida de 4 anos e ficar gritando!
Muito bom o recado.