ENSAIO: DA DESNECESSIDADE DE MIM MESMO
Esta semana estou preparando todos os documentos para entrar com pedido de aposentadoria como professor, ao mesmo tempo que estou tentando construir uma casa de praia no Mariscal. Aos 53 anos sinto-me desnecessário onde estou.
A profissão de professor tornou-se desnecessária no sentido conceitual que Aristóteles dá a esta palavra: aquilo que se impõe pela própria natureza da coisa em si. Não há mais o que falar porque me sinto entre extremos, perdido nos labirínticos versos de Hesíodo:
Ótimo é aquele que por si tudo entenda;
Sábio é também aquele que obediente oiça quem bem fala;
Mas quem por si não pense
Nem ouvindo a outrem sinta o coração desperto,
Este é, em verdade, um homem inútil.
Ou seja: tenho diante de mim pessoas que pensam que tudo entendem, ou pessoas que não consigo mais despertar o coração. Não há culpa nisso, sequer culpados. É o processo dialético dos tempos, de superação em busca do novo e do qualitativamente superior. Tempos em que o Google virou oráculo, supremo detentor de todas as verdades, valores e necessidades. Parafraseando um dito popular que afirma “Se apareceu na televisão é verdade” posso afirmar que hoje “Se está no Google é verdade”.
Sobre a foto, arrisco uma breve análise semiótica:
entre minhas mãos um par de olhos negros preparam o vôo de quem sabe que a liberdade está em pensar por si.
Após mais de vinte anos de magistério superior busco me aposentar como um peregrino que de tanto ir em frente retornou ao seu próprio lar. Estou de volta ao ponto inicial: só, comigo mesmo.